A manhã chega. Os principais sacerdotes e anciãos já tinham decidido a morte na noite anterior. Levam Jesus a Pilatos. E o capítulo abre uma cena lateral importante.
Judas, vendo que Jesus foi condenado, "arrependido" devolve as trinta moedas de prata. "Pequei, traindo o sangue inocente". Os sacerdotes respondem com a frase mais fria do capítulo: "Que nos importa? Isso é contigo". O sistema religioso usou Judas e o descartou. Ele atira as moedas no templo e vai se enforcar. As moedas, consideradas "preço de sangue", compram um campo de oleiro para sepultar estrangeiros. "Campo de Sangue". A consciência tardia de Judas não o salvou — não houve volta para ele.
Diante de Pilatos, Jesus permanece em silêncio. "Não respondeu nem uma palavra, de sorte que o presidente estava muito maravilhado". Pilatos sabe que a acusação é por inveja. Tenta livrar-se da decisão oferecendo escolha entre Jesus e Barrabás. A multidão, instigada pelos sacerdotes, pede Barrabás. Pilatos pergunta o que fará de Jesus. "Seja crucificado!". Não há crime; só fúria.
A mulher de Pilatos manda recado: "Não entres na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dele". Mateus registra esse detalhe único — uma pagã reconhecendo a justiça de Jesus. Mas Pilatos cede. Lava as mãos diante da multidão: "Estou inocente do sangue deste justo". O gesto é teatral. Não compra inocência por água — assina sentença política contra a consciência.
A cena da escarnação é cruel e detalhada: capa de escarlate, coroa de espinhos, cana na mão direita, ajoelhamento zombeteiro ("Salve, Rei dos judeus"), cuspes, cana virada e usada como bastão. Mateus não suaviza nada. Toda a humilhação do Filho de Deus está no texto.
No Gólgota ("Lugar da Caveira"), oferecem-lhe vinho com fel — calmante misturado, como era costume. Não bebe. Quer manter a consciência inteira até o fim.
A crucificação é descrita em poucas palavras. "Havendo-o crucificado". O texto não detalha. O foco é em outro plano: o sarcasmo dos passantes ("Tu, que destróis o templo... salva-te a ti mesmo"), dos príncipes dos sacerdotes ("Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se"), até dos próprios bandidos crucificados ao lado.
Então vem a hora sexta — meio-dia. "Houve trevas sobre toda a terra, até à hora nona". Três horas de escuridão. E Jesus brada: "Eli, Eli, lamá sabactâni" — "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". É o primeiro verso do Salmo 22, escrito mil anos antes. Cristo morre orando o salmo que profetizou seu próprio sofrimento.
E rende o espírito. Imediatamente: "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo". O véu separava o Lugar Santíssimo, onde só o sumo sacerdote entrava uma vez por ano. Rasga-se de cima para baixo (não foi mão humana). O acesso a Deus está aberto. Hebreus 10 desenvolverá essa imagem por capítulos.
A terra treme. Pedras se fendem. Sepulcros se abrem. O centurião romano, que tinha visto execuções a vida toda, faz a confissão mais surpreendente do capítulo: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus".
José de Arimateia recebe permissão para sepultar. Põe Jesus em túmulo novo, lacrado com pedra. As mulheres ficam ali olhando. Os sacerdotes pedem guarda — temem que os discípulos roubem o corpo. Pilatos concede. Selam a pedra. O sábado começa. O sepulcro está fechado, vigiado, oficial. E a Páscoa cristã já está em gestação.