Isaías 40 abre a segunda parte do livro. As trinta e nove primeiras seções foram juízo. Agora vem o consolo. "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus". A repetição é deliberada. Deus não fala uma vez de consolo — fala duas. O povo precisava ouvir.
"Falai benignamente a Jerusalém, e bradai-lhe que já a sua milícia é acabada, que a sua iniqüidade está expiada". O exílio anunciado nos capítulos anteriores tem prazo. A dívida será paga. A história não vai parar no escombro.
E vem a voz que João Batista vai assumir séculos depois: "Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus". Os quatro evangelhos vão citar este verso. A profecia se cumpre num homem comendo gafanhotos no Jordão.
A imagem é de obra pública. Vales exaltados, montes abatidos, áspero aplainado. Quando reis antigos viajavam, mandavam preparar a estrada. Deus está vindo — preparem o caminho. "E a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne juntamente a verá".
E o profeta lança uma frase que tem peso filosófico: "Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor... porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente". Pedro voltará a esse verso em sua primeira carta ao falar da palavra que permanece. A vida humana é frágil. A palavra de Deus, não.
A segunda metade do capítulo é uma teodicéia para gigantes. Isaías quer convencer um povo cansado de que o Deus deles ainda é grande. E faz isso com perguntas que apertam.
"Quem mediu na concha da sua mão as águas, e tomou a medida dos céus aos palmos?". A escala da resposta esmaga. "As nações são consideradas por ele como a gota de um balde, e como o pó miúdo das balanças". Os impérios que pareciam invencíveis são poeira na balança de Deus.
E Isaías ataca os ídolos com escárnio. O artífice escolhe madeira que não apodrece, talha imagem que não se mexe — "para gravar uma imagem que não se pode mover". O ridículo é claro: o adorador faz o deus que vai adorar.
E volta à grandeza divina: "Ele é o que está assentado sobre o círculo da terra... é ele o que estende os céus como cortina". Note: "círculo da terra" — o profeta hebreu, séculos antes da ciência moderna, descreve a terra como círculo.
O clímax é pastoral. Isaías sabe que o povo cansado pode ouvir tudo isso e responder: "o meu caminho está encoberto ao Senhor". Ou seja, ele é grande demais para se importar comigo. O profeta corta isso na raiz: "Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É inescrutável o seu entendimento".
E vem a frase que se memoriza, se canta em hinos, se grava em tatuagens, há séculos: "Os jovens se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão; mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão".
A promessa é progressiva e contraintuitiva. Voar (asas de águia) é o mais espetacular. Correr é menos. Caminhar é o mais comum. Mas o profeta inverte: voar primeiro, depois correr, depois caminhar. Há momentos altos da fé em que voamos. Há corridas. E há a vida cotidiana onde só caminhamos. A promessa cobre os três. Quem espera no Senhor não fica sem força para nenhum dos níveis.