Daniel já era idoso. Tinha servido sob Nabucodonosor, viu a queda de Babilônia, e agora servia sob Dario, o medo. "Daniel sobrepujou a estes presidentes e príncipes; porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava constituí-lo sobre todo o reino". A meritocracia de Daniel atraía inveja na corte.
Os concorrentes tentaram achar acusação. "Não podiam achar ocasião ou culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa". O texto registra a integridade rara: nenhum vão para acusação. E os inimigos chegam à conclusão: "nunca acharemos ocasião alguma contra este Daniel, se não a acharmos contra ele na lei do seu Deus". A única vulnerabilidade era a fé.
Eles montam uma armadilha cuidadosa. Vão a Dario com lisonja ("vive para sempre!") e propõem decreto: por trinta dias, ninguém pode orar a nenhum deus ou homem exceto a Dario. Quem desobedecer vai à cova dos leões. Apelam para a vaidade do rei, que assina sem pensar.
"Daniel, pois, quando soube que o edito estava assinado, entrou em sua casa". E aqui o detalhe importa: "havia no seu quarto janelas abertas do lado de Jerusalém, e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus, como também antes costumava fazer". Não muda nada. Não esconde, não para, não negocia. Continua exatamente como sempre fez.
A fé madura não dramatiza nem se ajusta à pressão política. Daniel ora porque sempre orou. As janelas abertas para Jerusalém vinham de 1 Reis 8 — Salomão tinha pedido que, no exílio, o povo orasse voltado para o templo. Daniel cumpre instrução de séculos antes.
Os inimigos espreitam, encontram-no orando, levam o caso ao rei. Dario fica "muito penalizado" — entendeu agora a armadilha. Trabalha o dia inteiro tentando achar saída. Mas a lei dos medos e persas não se revoga. Daniel é lançado na cova.
A frase do rei antes da execução é estranha: "O teu Deus, a quem tu continuamente serves, ele te livrará". Soa quase como esperança. Selam a pedra com o anel real. O rei volta ao palácio em jejum, sem música, sem sono.
De madrugada, com pressa, vai à cova: "Daniel, servo do Deus vivo, dar-se-ia o caso que o teu Deus, a quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões?". A voz é "triste" — Dario espera o pior.
A resposta vem de dentro da cova: "Ó rei, vive para sempre! O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele". Daniel passa a noite com leões e anjo. O anjo não mata os leões — fecha as bocas. A providência funciona com economia.
Dario se alegra. Daniel é tirado intacto. "Nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus". E os acusadores recebem o que tinham planejado para Daniel — junto com famílias. "Ainda não tinham chegado ao fundo da cova quando os leões se apoderaram deles". O texto não suaviza a justiça.
Dario emite decreto novo, agora a favor do Deus de Daniel: "em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre". Um pagão se torna pregador da fé verdadeira por causa da fidelidade silenciosa de um homem velho com janelas abertas.