Nabucodonosor faz uma estátua de ouro com sessenta côvados de altura (cerca de 27 metros) na planície de Dura. Convoca toda a oficialidade do império. A ordem é simples: ao som da orquestra, todos se prostram e adoram. Quem não se prostra vai para a fornalha de fogo ardente.
A música começa. O império inteiro se ajoelha. Mas três judeus, postos sobre os negócios da Babilônia, ficam de pé. Sadraque, Mesaque e Abednego — os nomes babilônicos de Hananias, Misael e Azarias. Companheiros de Daniel. Estavam treinados na corte e tinham subido aos cargos públicos. Mas obedecer ali significaria quebrar o segundo mandamento (Êxodo 20:4-5).
Caldeus delatam. Nabucodonosor, furioso, convoca os três. Oferece segunda chance: vou tocar a música de novo, prostrai-vos, ou serão lançados ao fogo. E acrescenta uma frase teologicamente provocadora: "E quem é o Deus que vos poderá livrar das minhas mãos?".
A resposta é uma das mais corajosas das Escrituras. "Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste".
A estrutura da fé está aqui: "e se não". Eles afirmam que Deus pode livrar. Mas se ele decidir não livrar, ainda assim recusam o ídolo. Não é fé condicional ao milagre. É fé que adora mesmo quando o milagre não vem. Fé que não compra a Deus por benefício.
Nabucodonosor enfurece. Ordena que a fornalha seja "sete vezes mais" quente. A intensidade mata os homens que carregam os três. E os três caem dentro "atados".
O rei, espantado, levanta-se: "Não lançamos nós, dentro do fogo, três homens atados?". A resposta dos conselheiros confirma. "Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem sofrer nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante ao Filho de Deus".
O quarto homem é debate antigo entre intérpretes. Para muitos cristãos, é teofania de Cristo pré-encarnado. Outros leem como anjo do Senhor. O texto não fecha definitivamente, mas chama a atenção do leitor: o fogo que matou os carrascos não tocou os três fiéis, e ainda apresenta companhia.
Nabucodonosor chama os três pelo nome (curioso — agora os chama "servos do Deus Altíssimo"). Eles saem. "O fogo não tinha tido poder algum sobre os seus corpos; nem um só cabelo da sua cabeça se tinha queimado, nem as suas capas se mudaram, nem cheiro de fogo tinha passado sobre eles". Saem como se nem tivessem entrado.
O rei pronuncia decreto. "Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abednego". Três jovens, três palavras de fé ("e se não"), e um império reconhecendo o Deus dos hebreus. O capítulo é manual de fé sob pressão. Funciona ainda hoje.