No primeiro dia da semana, muito de madrugada, as mulheres vão ao sepulcro com especiarias. Encontram a pedra revolvida e o corpo ausente. Dois homens "com vestes resplandecentes" perguntam: "por que buscais o vivente entre os mortos?". Não está aqui — ressuscitou.
Elas correm contar aos onze. "As suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram". A primeira proclamação da ressurreição é feita por mulheres, e a primeira reação dos apóstolos é descrer. O texto registra sem suavizar. Pedro vai ao sepulcro confirmar — e volta admirando.
A segunda metade do capítulo é uma das narrativas mais bonitas dos evangelhos. Dois discípulos saem de Jerusalém para Emaús. Cléopas e outro (sem nome). Conversam sobre os dias. "O mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles. Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem".
Jesus pergunta o que conversam. Cléopas, surpreso, resume tudo: "as coisas que dizem respeito a Jesus Nazareno". Conta a paixão, a morte, o sepulcro vazio. Termina com uma frase que diz tudo sobre o estado deles: "esperávamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora...". Esperávamos. No passado.
E Jesus responde com algo inesperado: "Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!". E começa a explicar. "Por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras". Lucas resume em uma frase a maior aula bíblica da história: o Cristo ressurreto explicando o Antigo Testamento por inteiro a dois homens cansados.
Chegam à aldeia. Jesus faz como quem ia adiante. Os dois insistem: "fica conosco, porque já é tarde". À mesa, ele toma o pão, abençoa, parte e dá. "Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes". O pão partido revelou o que duas horas de exegese não tinham revelado. A eucaristia já está aqui, em embrião.
Eles voltam correndo a Jerusalém. Não importa que seja noite, longa caminhada, mesma estrada. "Não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava?". A frase entrou na espiritualidade cristã para sempre. Há momentos em que o coração arde antes mesmo de a mente entender.
Em Jerusalém, Jesus aparece aos onze. Eles pensam que veem fantasma. Ele come um peixe diante deles. "Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo". A ressurreição não é espiritualização — é corporal.
E então abre o entendimento deles para as Escrituras. Repete o que tinha feito no caminho de Emaús, agora para o grupo: "convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos".
Leva-os a Betânia. Levanta as mãos. Os abençoa. "E foi elevado ao céu". Adoraram. Voltaram "com grande júbilo" para Jerusalém. Lucas começou seu evangelho no templo (com Zacarias) e o termina no templo, com os discípulos louvando. O círculo se fecha. Mas Atos vai começar exatamente onde Lucas para — esperando o Espírito.