Jesus designa setenta e os manda "de dois em dois" pelas cidades. "Grande é a seara, mas os obreiros são poucos". A primeira oração que ensina sobre missão não é por ousadia ou estratégia. É por gente: "rogai ao Senhor da seara que envie obreiros".
Eles voltam alegres: "até os demônios se nos sujeitam". Jesus responde com aviso: "não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus". O ministério tem fruto, mas o fruto não é critério da alegria. O nome no céu é.
E então vem a parte do capítulo que ficou na cultura ocidental por dois mil anos. Um doutor da lei, querendo testar Jesus, pergunta: "Mestre, que farei para herdar a vida eterna?". Jesus devolve a pergunta: "que está escrito na lei?". O doutor recita: amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo. "Respondeste bem; faze isso, e viverás".
Mas o homem quer "justificar-se a si mesmo" e pergunta: "e quem é o meu próximo?". A pergunta tem armadilha — quer estreitar a definição de próximo para algo administrável.
Jesus responde com a parábola do bom samaritano. Um homem desce de Jerusalém para Jericó, é assaltado, espancado, deixado meio morto. Um sacerdote passa de largo. Um levita passa de largo. Os dois representantes profissionais da religião não se aproximam — provavelmente por escrupulosidade ritual (cadáveres contaminam).
E então passa um samaritano. Os ouvintes de Jesus odiavam samaritanos — povo misturado, herético, inimigo histórico. O samaritano se move "de íntima compaixão". O verbo grego (splanchnizomai) é visceral — "sentir nas entranhas". Atou as feridas com azeite e vinho (custosos), pôs sobre o próprio animal (o samaritano agora anda a pé), levou à estalagem, cuidou dele, pagou. "Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar".
E Jesus inverte a pergunta. O doutor perguntou "quem é o meu próximo?" — buscando definição que limitasse a obrigação. Jesus pergunta: "qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu?". A pergunta verdadeira não é quem é meu próximo, é se EU sou próximo do necessitado.
O doutor responde, sem conseguir dizer "o samaritano": "o que usou de misericórdia para com ele". Jesus encerra: "Vai, e faze da mesma maneira".
O capítulo fecha com Marta e Maria. Marta recebe Jesus em casa. "Distraída em muitos serviços", reclama da irmã. Maria está sentada aos pés do Mestre, ouvindo. Jesus não condena Marta — chama o nome dela duas vezes, sinal de afeto: "Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária".
Maria escolheu "a boa parte", que não lhe será tirada. O capítulo amarra dois pólos do amor: a ação (samaritano) e a contemplação (Maria). Não são contrários. Mas há momentos em que sentar-se e ouvir é mais necessário do que servir agitado.