Lázaro está doente em Betânia. As irmãs, Marta e Maria, mandam recado: "aquele que tu amas está enfermo". Jesus ouve, mas não vai. "Ficou ainda dois dias no lugar onde estava". É um detalhe que dói. O atraso é deliberado.
Jesus diz uma coisa enigmática aos discípulos: "esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus". Eles não entendem. Quando finalmente decide ir, avisa que Lázaro "dorme". Os discípulos pensam em sono natural. Jesus esclarece: "Lázaro está morto".
Quando chega, já são quatro dias de sepultura. Marta sai correndo ao encontro: "Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido". A mesma frase Maria dirá depois. As duas irmãs guardam a mesma queixa.
E então vem uma das declarações mais altas do evangelho. Marta confessa fé futura — "sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia". Jesus desloca: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?". Não é doutrina sobre o futuro. É uma pessoa, agora, dizendo que ela mesma é a vida.
Maria chega chorando. Os judeus choram com ela. E acontece o detalhe mais humano do capítulo: "Jesus chorou". Duas palavras. O verso mais curto da Bíblia em algumas línguas. O Filho de Deus que sabia que ressuscitaria Lázaro chora antes de fazê-lo. A fé não anula o luto. Jesus partilhou o nosso choro.
No sepulcro, Marta resiste: "Senhor, já cheira mal, porque é já de quatro dias". Quatro dias era prazo importante na cosmologia judaica antiga — passados eles, o espírito teria deixado o corpo definitivamente. O caso é tido por irrecuperável. Jesus responde: "não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?".
A pedra é tirada. Jesus levanta os olhos para o Pai (não pede ressurreição — agradece antecipadamente: "graças te dou, por me haveres ouvido"). E clama: "Lázaro, sai para fora". O texto comenta com ironia que Jesus chamou pelo nome — porque se tivesse dito apenas "sai", todos os mortos teriam saído.
Lázaro sai. "Tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço". A imagem é assustadora. "Desligai-o, e deixai-o ir". Ainda precisa ser solto. Hebreus 2:14-15 retomará o tema: Cristo veio libertar os que pelo medo da morte estavam sujeitos à servidão.
O milagre tem consequência política. Os fariseus se reúnem. Caifás pronuncia a profecia involuntária: "convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação". Não sabia o que dizia. A ressurreição de Lázaro acelera a morte de Jesus. Para ressuscitar, Jesus aceitará primeiro morrer.