Saulo está "respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos". A frase é grave. Ele já tinha aprovado o assassinato de Estêvão (Atos 7-8); agora pega cartas oficiais para perseguir os cristãos até Damasco. Não é zelo casual — é projeto sistemático.
E no caminho, perto de Damasco, acontece o que muda tudo. "Subitamente o cercou um resplendor de luz do céu". Cai por terra. Ouve uma voz: "Saulo, Saulo, por que me persegues?". A repetição do nome em dois é eco de Abraão no Moriá, Jacó descendo ao Egito, Moisés na sarça. Deus chama duas vezes quando o momento é decisivo.
Saulo pergunta: "Quem és, Senhor?". A resposta vira a vida ao avesso: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues". O Jesus que Saulo achava morto — e cuja memória ele queria apagar — está vivo, e identifica-se com os discípulos. Perseguir os cristãos é perseguir Cristo. A doutrina paulina do corpo de Cristo nasce nesse instante.
Saulo levanta-se cego. Os companheiros o conduzem pela mão a Damasco. "Esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu". Três dias é tempo de Bíblia. Três dias entre o cutelo e o carneiro de Abraão. Três dias entre cruz e ressurreição. Três dias de cegueira são três dias de gestação interna.
Em Damasco há um discípulo chamado Ananias. Deus lhe aparece: vai a Saulo, ele está orando. Ananias hesita: "Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem". O medo é razoável. O homem é conhecido como caçador de cristãos.
Deus responde com uma frase que muda toda a missão da igreja: "Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome". Antes mesmo de Saulo pregar uma palavra, Deus já anunciou seu sofrimento. A vocação tem cruz no preço.
Ananias vai. Põe as mãos sobre Saulo. E começa com uma palavra que muda a Bíblia: "Irmão Saulo". Quem perseguiu chama agora de irmão. "Caíram dos olhos como que umas escamas". Recupera a vista. É batizado. Come. "Logo nas sinagogas pregava a Cristo". Sem treinamento prévio. O homem que fazia listas para prender agora prega o que tinha vindo apagar.
O capítulo segue mostrando a vertigem da nova vida de Saulo. Os judeus ficam atônitos. Os cristãos não acreditam. Quando volta a Jerusalém, os apóstolos o temem. Barnabé é quem o introduz — função de pontificar entre lados que não se confiam.
Lucas resume: "as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria tinham paz, e eram edificadas". A perseguição que Saulo encabeçava acabou com a conversão dele. A paz das igrejas é fruto direto.
O capítulo fecha com Pedro ressuscitando Tabita em Jope. A história da igreja vira página. O próximo capítulo trará Cornélio, o primeiro gentio convertido. A igreja está se preparando para sair dos limites de Israel.