Apocalipse 20 é um dos capítulos mais debatidos da Bíblia. Apresenta o que a tradição cristã chama de "milênio" — mil anos em que Satanás está amarrado e Cristo reina. Pré-milenistas, pós-milenistas e amilenistas leem o capítulo de modos diferentes. Mas certas verdades teológicas são claras a todas as escolas.
Um anjo desce com a chave do abismo e "uma grande cadeia". Prende "o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás". A identificação amarra todos os nomes do mal num só. Lança no abismo. Fecha. Sela. "Para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem".
Quer se leiam os mil anos como tempo cronológico exato (pré-milenismo) ou como símbolo da era da igreja em que o evangelho corre livremente (amilenismo), o ponto teológico se mantém: há um período em que o engano de Satanás é restringido. Cristo reina.
Vêm tronos, e os santos julgam. "Vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta". Os mártires recebem reinado. "E viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos". "Esta é a primeira ressurreição".
E há uma das bem-aventuranças mais consoladoras do livro: "Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo". A segunda morte é a separação eterna de Deus. Quem participa da primeira ressurreição (a vida em Cristo) está livre dela.
Depois dos mil anos, Satanás é solto "por um pouco de tempo". Sai a enganar as nações "sobre os quatro cantos da terra, Gogue e Magogue". Os nomes vêm de Ezequiel 38-39 — símbolos das nações inimigas. Cercam "o arraial dos santos e a cidade amada". A última batalha. E é breve: "de Deus desceu fogo, do céu, e os devorou". Não é guerra prolongada — é juízo direto.
O Diabo é lançado no lago de fogo, onde já estavam a besta e o falso profeta (Apocalipse 19:20). "De dia e de noite serão atormentados para todo o sempre". O texto é difícil. Mas é claro.
E então a cena culminante. "Vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele". A presença é tão santa que "de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles". A criação inteira recua diante do juízo.
"Os mortos, grandes e pequenos". Sem exceções de classe ou poder. "Abriram-se os livros" — registros das obras. "E abriu-se outro livro, que é o da vida". Dois conjuntos de livros. Os primeiros documentam o que cada um fez. O segundo registra os redimidos.
"E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras". As obras importam — são evidência da fé. Mas a salvação está no "livro da vida". "Aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo".
E há a frase que conclui: "a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte". A própria morte morre. O último inimigo (1 Coríntios 15:26) é destruído. O capítulo prepara Apocalipse 21 — o céu novo e a terra nova, sem morte, sem lágrima, sem dor.